CineClube do Porto

Blog do Clube Português de Cinematografia - CineClube do Porto (cineclubedoporto@gmail.com)

29-08-2006

Como nasceu o Cine-Clube do Porto


por Jorge Campos Tavares


Tudo começou há cerca de trinta anos num liceu do Porto — o Liceu Alexandre Herculano.

O cinema fervilhava na cabeça de muitos e ir ao cinema era o rito semanal das tardes de sábado. Nesse dia lá estávamos todos a ver a fita que melhor nos parecera essa semana — avaliada pelos quadros expostos no átrio ou pelo «trailer» visto na semana anterior. Como nessa época não havia restrições no que respeita à entrada de menores, nós víamos tudo — bom e mau, aconselhável ou desaconselhável — mas, de uma maneira geral, escolhíamos bem.

Já então havia um numeroso grupo de «doentes» que discutia cinema, uns com veleidades de estetas, outros pretendendo ser entendidos em «como aquilo se fazia", outros ainda romanticamente apaixonados pelas «vedetas», coleccionando-lhes fotos, outros ainda planeando lançar-se na Produção quando fossem «grandes»...

Apesar das nossas discrepâncias em matéria de ideais, encontrávamo-nos sempre nas «matinées» a ver as mesmas fitas de pancadaria, de série, (com dúzias de episódios inverosímeis), comédias, «westerns», e a apreciar os duelos entre o Errol Flynn e o Basil Rathbone naquelas películas em que a História era a maior vítima assassinada do princípio ao fim da película.

Ora, entre nós, havia um que já nesse tempo mostrava uma ponderação e uma iniciativa aliadas a um bom-senso verdadeiramente precoce — o Hipólito; activo, com modos suaves, uma grande capacidade de organização, sabia orientar os ímpetos juvenis dos colegas, impondo-se como líder, sem todavia magoar as susceptibilidades dos menos maleáveis.

Creio que no seu quinto ano, encabeçou um movimento para dar sessões cinematográficas no Liceu (aproveitando a existência de uma sala própria, com projector e projeccionista) exibindo assim, para alunos e professores alguns bons filmes em «reprise» pelo preço das custas.


Depois com um pequeno núcleo de colegas fez uma espécie de clube de cinéfilos —«A República dos Pardais» — em que os sócios se quotizavam para irem em grupo ver filmes de agrado colectivo. A «República dos Pardais» não excederia três dezenas de jovens.

Numa viagem de férias que fez a Barcelona entrou em contacto directo com o Cine-Clubismo autêntico e veio-nos de lá com a ideia de formar um Cine-Clube legal e real, em vez de brincadeira de estudantes — que englobasse não só os cinéfilos, como os que pretendiam fazer filmes e os que se interessavam esteticamente pelo cinema.

Assim, a 13 de Abril de 1945 [a poucos dias do final da 2ª Grande Guerra], uma data que nós logo consideramos solene, fez-se uma reunião em casa do nosso líder e, enxertada na «República dos Pardais», que se desvanecia, nasceu o Clube Português de Cinematografia (CPC).

As finalidades do clube foram ali logo estabelecidas. Defender o cinema em geral e o cinema português em particular, publicar um boletim, realizar sessões exibindo filmes de interesse cine-clubista tendentes a dar uma boa formação cinematográfica aos associados. Formar ainda uma escola de cinema. O clube não tinha fins religiosos ou políticos.

Inscrito na Federação das Colectividades, «em organização», prepararam-se os estatutos e começou a campanha para angariar mais sócios. (Na reunião inicial, a "República dos Pardais" não excederia três dezenas de jovens).

Novos sócios - todos jovens - foram aderindo, alguns amadores experientes como A. Lopes Fernandes, e um profissional, o operador Fernando Neves.

Uma firma de artigos fotográficos deu também o seu apoio e finalmente, a 23 de Março de 1946 o C.P.C. dá a sua primeira sessão de acordo com o que se propôs fazer inicialmente.

(1ª Sessão do cineclube) Decorreu no salão do «Grupo dos Modestos», em sessão privada para os sócios de ambas as colectividades. O programa composto por filmes de formato reduzido, consistia no desenho «Automania» de Servais Tiago, «Pesca do Sável» e «Marrocos» de Mateus Júnior (filmes amadores premiados), tendo como filme de fundo uma cópia em 9,5 mm do «Fausto», de Murnau — um filme clássico, mudo, com Emil Jannings no Mephisto.

O Clube já existia de facto e a sua acção já se começava a fazer sentir. Entretanto, abriram-se concursos de planificações para a primeira produção do clube.

Todas estas actividades culminaram em Outubro de 1946 quando o Cine-Clube arca a responsabilidade de trazer ao Porto um filme profissional, não-comercial, garantindo a passagem total da casa na noite da estreia - o que consegue.

Foi assim que o Porto teve o ensejo de ver em exibição, durante uma semana, esse notável filme sueco de Alf Sjoberg «A Estrada que Conduz ao Céu».

Em fins de 1946, já não era o caso de se terem lançado as fundações de uma obra - a obra estava feita: havia uma situação legal (embora os estatutos não estivessem ainda aprovados), princípios estabelecidos e, de certo modo, cumpridos, associados numerosos, uma posição financeira equilibrada, prestígio, e uma obra realizada - sessões com filmes clássicos, e digamos, uma ante-estreia de um filme importante. E tudo realizado por jovens cheios de entusiasmo e boa vontade. O Clube realizara-se, como agora se diz.



O tempo passou e muito aconteceu. O clube evoluiu muito, em 1948 acrescentou ao nome de CPC o de Cine-Clube do Porto e chegou a ser — dizem — um dos maiores da Europa.

Mas tudo isso é outra história. Contamos aqui apenas como se fundou esse clube, nascido pela mão de Hipólito Duarte da «República dos Pardais» do Liceu Alexandre Herculano, génese de que já poucos se lembram e de que não existem sequer arquivos...

PLATEIA - nº 694 de 18 de Maio de 1974


publicado em: 1000 SESSÕES (CineClube do Porto)


 

27-07-2006

textos 05 - Secção Infantil


Colaborei na Secção Infantil do Cineclube do Porto. Estava eu, então, imbuída de preconceitos moralistas que pensava deveria usar em favor das criancinhas: querias-as boazinhas, metódicas, disciplinadas, atinadas. Resumindo: subservientes aos conceitos de educação e perfeição dos adultos... que já se esqueceram do que os fazia felizes quando eram crianças.

Na crónica falta de filmes para crianças, muitas vezes se valia o Cineclube das fitas de Charlot para levar a cabo as sessões. Eu discordava. Não só porque achava que nunca Charlot fora criado a pensar em crianças, mas também porque pensava que algumas das suas atitudes eram deseducativas: como bombeiro desligar o alarme do quartel para não ser incomodado enquanto jogava as cartas; como relojoeiro não consertar os relógios, antes os danificar e ainda agredir os clientes que protestavam, etc. Comecei a chamar a atenção dos miúdos para esses “erros” e, agora, à distância vejo-me a fazê-lo de um modo pretencioso.

Até que, um dia, um dos miúdos, catraio ali do bairro de Miragaia, interrompeu-me: "Ó Senhora, não seja chata! Não vê que isto é tudo fita?!"

                                                                              Eunícia Salgadinho

08-06-2006

Textos 04 - Secção de Cinema Experimental

A propósito da Secção de Cinema Experimental

por Fernando Ferreira


Corria o ano de 1958. Com o encorajamento da Direcção do Cineclube do Porto, um grupo de associados constituiu-se em «comissão», criando a denominada secção de cinema experimental. Recordarei mais adiante, e com gratidão, o nome dos seus organizadores, que, sem favor, ficarão como exemplo a todos quantos lutam contra a mediocridade do tão discutido Cinema Português.

 Em época de repressão, logicamente a criação artística era também vigiada e, desse modo, uma sacudidela fora tentada. Semelhante a um grito contra a inércia, a comissão convida a massa associativa, caso desejasse, a inscrever-se num Curso de Formação Cinematográfica, com vista à descoberta de vocações técnicas e artísticas. O interesse fora um facto, como ficou comprovado pelas dezenas de adesões, dado que não fora exigido determinado grau académico. A 14 de Março do ano atrás referido, realizou-se a primeira sessão, dirigida pelo cineasta Manoel de Oliveira. Entretanto, por sorte nossa, tivemos também como mestre o operador António Mendes. Paralelamente à teoria, constituíram-se equipas de filmagem tendo-se produzido pequenos filmes de ensaio e experimentais. Mais tarde, com o entusiasmo de todos os alunos e da própria Direcção, propuseram-se realizar um trabalho mais ambicioso e que seria uma espécie de bitola ou prova final. Refiro-me ao filme etnográfico e a cores «Auto da Floripes», baseado numa representação popular e cuja ideia se fica a dever a Alves Costa, dirigente cineclubista e crítico de cinema. Análises, ao tempo, feitas à fita concederam-lhe justos aplausos, que muito honraram o Cineclube do Porto.

 Assim, a Secção de Cinema Experimental fora um verdadeiro banco de estudo e ensaio. A Imprensa, Rádio, T.V. e, já se vê, o Cinema têm actualmente nos seus quadros elementos que frequentaram o curso do Cineclube.

 Porém, as condições, ou o «destino», nem a todos bafejou e pena foi que, mau grado a sua dedicação, entusiasmo, e até talvez capacidade, os responsáveis permitissem que se tivessem perdido alguns...

 

Comissão Fundadora

 

Adelino Felgueiras
Alcino Soutinho
António Lopes Fernandes
António Reis

Arnaldo Araújo
 



 

 

29-05-2006

Textos 03 - Secção Infantil

Secção Infantil

No próximo dia 27 no salão do Ateneu Comercial do Porto, a escritora e nossa consócia D. Ilse Losa, pronunciará uma conferência subordinada ao tema «O Cinema e as Crianças» em que focará, entre outros pontos, a necessidade de facultar à criança espectáculos cinematográficos próprios para a sua idade e para o seu entendimento.

 Avisamos também os nossos consócios que se encontra em activo funcionamento a secção infantil do Cine-Cube, promovendo-se uma sessão cinematográfica, na tarde do próximo dia 30, no Ateneu Comercial do Porto. A essa sessão terão direito de assistir todos os pequenos sócios do nosso Cine-Clube Infantil, mediante a apresentação dos respectivos cartões. As crianças não poderão fazer-se acompanhar por pessoas de família, mas ficarão entregues a pessoas responsáveis designadas pela Direcção.

 Se as inscrições no Cine-Clube Infantil o permitirem, espera-se muito em breve dar início a sessões regulares, na nossa sede, numa sala de que já dispomos para esse fim.”

  Programa de 23 de Março de 1952

19-05-2006

Textos - 02 - "O Mais Pequeno Teatro do Mundo"

A secção infantil


(...) Criada por Mário Bonito e Helena Alves Costa, foi a secção infantil, onde, pela primeira vez em Portugal, se proporcionava às crianças espectáculos de cinema, com filmes seleccionados comentados e discutidos com as próprias crianças. A Mário Bonito se deve também (ainda com Maria Helena Alves Costa) o teatrinho de fantoches que se criou no Cineclube: «O Mais Pequeno Teatro do Mundo», que exerceu a sua acção dentro e fora do clube e foi chamado a fazer várias tournées por terras onde nunca chegava nada que às crianças se destinasse.(...)

Henrique Alves Costa

14-05-2006

Textos - 01 - HIPÓLITO DUARTE

Janeiro de 1946

«O primeiro Cineclube português já é uma realidade!

 Para o fundar foram precisos os sacrifícios de meia-dúzia de carolas... para o manter serão precisos os sacrifícios de todos os verdadeiros Amigos do Cinema; mas nós confiamos neles... Estamos certos de que eles virão ao nosso encontro, trazendo a sua contribuição, ainda que modesta, à nossa grandiosa obra.

 O Clube Português de Cinematografia, que inicia a sua actividade com a saída deste boletim, nada promete... para não ter que faltar...

 Apenas dizemos que faremos tudo o que pudermos, batalhando, contra tudo e contra todos, pela honra e prestígio do cinema português».

 

HIPÓLITO DUARTE

Sócio Fundador do Clube Português de Cinematografia

Boletim «Projector» nº1






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